Caminho de Santiago de Compostela
Buen Camino - Peregrinação de bicicleta
853 km, 16 dias
Mari Faccio e Sidnei Assis
O Caminho de Santiago de Compostela é uma rota milenar de peregrinação, composta de diversas variantes que atravessam a Europa convergindo para a mítica catedral da cidade de Santiago, na Galiza, noroeste da Espanha. A história do surgimento do Caminho remonta à biografia do apóstolo São Tiago Maior, que nos anos seguintes à ressureição de Jesus Cristo, percorreu a região pregando o evangelho.
Nesta viagem, a Mari e eu fizemos o Caminho Francês, que é a rota mais popular e mais tradicional. Saindo de Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, percorremos 853 km pedalando até chegar à catedral de Santiago.
A ideia e a insistência pra fazer a viagem partiram da Mari, que há alguns anos se comprometeu a fazer a peregrinação dentro dos ritos da sua crença católica.
Decidimos por alugar as bicicletas lá na Espanha, em vez de levar as nossas, primeiro pela facilidade logística de não precisar levar o equipamento nos voos e outras pernadas de trem e ônibus, mas também porque as companhias aéreas não transportam bicicletas elétricas (com bateria), como é o equipamento que a Mari utilizou.
Contratamos então o aluguel de uma mountain bike convencional pra mim e uma MTB Full Suspension assistida pra Mari. Pegamos as bicicletas na cidade inicial e devolvemos ao final da viagem, em Santiago. As magrelas funcionaram super bem. Os únicos contratempos foram dois pneus furados, consertados sem maiores problemas.
Planejamos fazer o Caminho em 16 dias, considerando um parâmetro conservador, que nos permitisse aproveitar cada etapa sem muita pressa e de forma que não se tornasse exaustivo.
Em termos de dificuldade, podemos afirmar que não é um trajeto fácil, independente de condicionamento físico ou experiência do ciclista. Em termos de esforço físico requerido, há trechos de elevada altimetria, particularmente na etapa inicial e nas três finais. Mas também há alguns desafios técnicos, como trilhas "single tracks" bem acidentadas e pedregosas, e por vezes bastante íngremes.
E naturalmente há que se lidar com as condições climáticas que se apresentem. No nosso caso enfrentamos alguns dias de muito calor na parte da tarde de algumas etapas, outras vezes muito frio (por volta de 8 graus) pela manhã, mas felizmente não chegamos a pegar chuva, ainda que tenhamos pedalado alguns dias sob céu nublado e mesmo sob garoa fina (e pancadas de chuva rondando ao redor).
Mas há também questões mais sutis que consomem um pouco de energia na forma de preocupação, que, se não tomarmos cuidado, podem chegar a comprometer a atenção ao momento presente, como os riscos inerentes de uma eventual queda ou acidente, ou mesmo de uma pane mecânica no equipamento.
Estar por conta própria num projeto como esse certamente proporciona uma enorme flexibilidade e autonomia, mas por outro lado, também deixa uma ligeira sensação de insegurança meio constante.
Há que se considerar ainda a bagagem transportada nas bikes (basicamente dois alforjes cada uma, em torno de 10 kg de carga no total) como fator de diminuição da agilidade ao guidão. O peso certamente compromete um pouco o rendimento e exige um esforço extra de toda a estrutura do equipamento.
Em todo o Caminho há uma enorme quantidade de peregrinos caminhando. Pessoas que fazem o percurso completo, e outras que fazem partes dele. Na sua grande maioria, estrangeiros. E pessoas de todas as idades, mas me parece que a maior parte é de senhores e senhoras de mais de 60 anos, em proporções mais ou menos semelhantes entre homens e mulheres.
A beleza das paisagens ao longo do Caminho é um aspecto a se destacar. É realmente muito bonito. Há lindos bosques, morros a perder de vista, campos cultivados, plantações de pinheiros e muitos vilarejos antigos e singularmente pitorescos.
A antiguidade das construções e arquitetura é algo que nos faz sentir como se estivéssemos num outro tempo. Há também algumas cidades grandes e modernas no trajeto (que, diga-se de passagem, são as mais complicadas e desgastantes pra circular), mas o charme fica definitivamente com as pequenas vilas e povoados.
Optamos por nos hospedar sempre em pequenos hotéis ou pousadas (com exceção de um dia em que ficamos em um albergue). De forma geral não fizemos reservas antecipadas (com exceção de alguns lugares menores e mais críticos), a fim de nos dar flexibilidade no caso de algum eventual imprevisto.
No entanto, as dezesseis etapas que fizemos foram minuciosamente planejadas e cumpridas, ou seja, tínhamos um planejamento bem definido do percurso a ser feito em cada dia.
Sobre fazer o Caminho da forma tradicional, caminhando, ou de bicicleta, podemos dizer que evidentemente são propostas diferentes. Caminhar, de fato, tem a beleza da simplicidade, da ancestralidade, da "velocidade natural" de contemplação da paisagem ao redor; mas, em contrapartida, cobra o preço do desgaste físico atrelado à atividade, além do tempo significativamente maior de deslocamento requerido para vencer as distâncias.
Já pedalar tem a vantagem de ser mais lúdico, provavelmente mais divertido, muito mais dinâmico e tem a graça de estar conduzindo um equipamento altamente versátil e que requer uma boa dose de atenção no seu gerenciamento.
Grosso modo, os peregrinos que caminham fazem etapas diárias entre 24 e 30 km, o que requer em torno de 8 a 10 horas de caminhada por dia (incluindo as paradas), em média. Nessa medida, o Caminho costuma ser percorrido por volta de 35 dias de viagem.
De bicicleta, um parâmetro de certa forma confortável é fazer entre 50 e 60 km por dia, numa média de 4 horas de atividade (com paradas), o que permite então concluir o Caminho em torno de 16 dias, como fizemos.
No final das contas, cada uma dessas formas tem sua graça, seu mérito, sua dificuldade e seu contexto. Cabe a cada um eleger a sua proposta, a sua intenção e a sua "pegada".
Em termos de orientação, todo o percurso é muito bem sinalizado com as famosas setas amarelas pintadas nos muros, meio fios e placas distribuídas por toda parte. Ainda assim há lugares e situações que geram dúvidas, momentos em que é bem fácil não ver uma sinalização e seguir pelo caminho errado, etc. Por isso utilizamos, como apoio à navegação, a rota de cada dia num aplicativo de navegação ("Ride with GPS"), que foi fundamental para nos garantir a certeza de estarmos no caminho certo e também pra tomar algumas decisões em momentos mais críticos.
De forma geral, fizemos, de bicicleta, o mesmo caminho dos peregrinos caminhantes, com exceção de alguns trechos em que buscamos alternativas mais convenientes, seja pra evitar algum ponto mais complicado pra bike, seja pra ganhar um pouco de tempo percorrendo algum pequeno trecho pelas estradas asfaltadas próximas ao caminho tradicional. Nessas ocasiões era ainda mais importante refinar a navegação com o aplicativo (no celular), pra poder retomar o caminho mais à frente.
A religiosidade e a mística do Caminho são também um aspecto admirável da vivência da peregrinação. É inegável que há uma energia de devoção e de "entrega" no Caminho, consolidada ao longo de várias centenas de anos por pessoas que percorrem essas trilhas em busca de seus sonhos, ideais e visões.
Testemunhar os passos lentos e ritmados das pessoas, os constantes cumprimentos de "buen camino", algumas pessoas em visível dificuldade e cansaço físico, as igrejas centenárias, os sinos tocando, as velas ardendo nos altares; tudo nos convida a entrar nesse estado de introspecção e de entrega do esforço da empreitada a algo maior do que nós mesmos.
As muitas igrejas visitadas ao longo do Caminho são um atrativo á parte. A grande maioria é de construções com centenas de anos. Algumas, as catedrais, são enormes, belíssimas, monumentais, o que nos provoca uma ambígua sensação: um impactante deslumbramento, uma sensação de ser pequeno diante disso, ao mesmo tempo que nos leva a refletir sobre qual será a intenção por trás desse modelo. Seja como for, é belo e comovente presenciar esses ambientes. Não é todo dia que ficamos diante de uma obra às vezes com mais de 800 anos de idade.
É interessante também observar como funciona a percepção do tempo numa viagem como essa. Desde o planejamento e preparação, passando pelos dias que antecederam nosso embarque, os primeiros dias da pedalada, terminando com nossa chegada a Santiago e depois nosso retorno ao Brasil, a sensação de que o tempo passa de forma variada é uma certeza.
No começo da viagem parecia que os dezesseis dias à frente eram uma eternidade. Agora, de volta ao nosso cotidiano, parece que tudo passou rápido demais. Onde está a verdade, nesse caso? Não está em lugar nenhum. No final das contas, o tempo, assim como a vida, talvez seja apenas mesmo uma sensação, uma impressão totalmente distorcida (ou filtrada) pelas nossas expectativas, ansiedades, medos, etc.
Me parece que tudo o que vemos e sentimos está dentro dessa "bolha de percepção pessoal". Por isso procuro sempre deixar uma pontinha de desconfiança naquilo que acho que é certo (ou errado), sobretudo em relação às minhas próprias avaliações.
Viajar é uma arte refinada que, como sabemos, exige disposição (ou, em outras palavras: tem que saber brincar a brincadeira). Visto com antecedência (antes de acontecer) ou em retrospecto (depois), nunca é o mesmo que vivenciar o dia a dia, cada quilômetro, cada preocupação, cada pequena frustração, as descobertas de cada curva ou a agonia de cada subida.
A realidade dos fatos é sempre mais dura, menos romântica e demanda muito mais esforço pra ser vivida do que as lembranças, fotos e textos normalmente sugerem. Mas vale a pena, é lógico. Sempre vale.
Apesar dos inevitáveis contratempos, temos que convir que viajar para "o estrangeiro" tem lá o seu charme. Inserir-se de vez em quando em uma outra cultura, outros parâmetros, outras referências dá uma chacoalhada nos nossos métodos pessoais, que vão se arraigando com o passar do tempo, inevitavelmente. É bacana essa sensação de se jogar lá pro outro lado do mundo pra dar uma volta e ver como são as coisas por lá.
Igualmente gratificante é essa sensação de cumprir um propósito pessoal. Sair de um ponto A e chegar, dias depois, em um ponto B, usando apenas as próprias forças físicas e anímicas, em uma bicicleta.
Talvez, no final das contas, a vida seja também mais ou menos isso: cumprir um trajeto, alinhar (ainda que muito aproximadamente) uma visão de mundo pessoal àquilo que efetivamente se faz, tentar ser aquilo que imaginamos ou que gostaríamos de ser (ainda que sempre de maneira muito tortuosa). E, no percurso, tentar curtir a viagem, apreciar a paisagem, deixar o coração mais leve. Que assim seja.
Vamos juntos?
*** *** ***
A seguir, texto da Mari, com sua visão da viagem:
Joguei meu sonho para ser uma promessa
Em 11 de dezembro de 2016, na noite anterior à minha cirurgia da mama, enquanto passava para o papel as mensagens dos 31 desejos que havia recebido pelo WhatsApp, minha irmã, Nilda Faccio Morandi, que me acompanhava no hospital, disse:
— Mari, faça uma promessa para tudo dar certo.
Antes de dormir, conversei com Deus e me comprometi: se fosse curada, iria a Santiago de Compostela. Não determinei data, nem como chegaria lá. Apenas fiz a promessa.
Passei pelas duas cirurgias, fiquei bem e, desde então, buscava o momento de cumprir o compromisso assumido com Deus. A vida seguiu: trabalhava, pintava, Thaís crescia, aposentei-me, construímos o chalé, realizamos o casamento religioso... O tempo foi passando, e a promessa continuava guardada em meu coração.
Assistindo várias vezes à série The Chosen, fui me inspirando e, finalmente, decidi que seria em 2026. Conversei com o Assis e decidimos colocar a ideia em prática, mas resolvemos fazer o caminho de bicicleta, e não caminhando. Assim, em vez de sermos peregrinos, seríamos bicigrinos!
Assis comprou uma e-bike e durante três meses, pedalamos juntos por Piraquara e São José dos Pinhais, atravessando parques, estradas de terra, paralelepípedos e asfalto. Estávamos nos preparando para viver uma experiência que, até então, existia apenas como sonho e promessa.
Cinquenta e seis dias antes da viagem, quando compramos as passagens, comecei meu diário motivacional. Confiei que seria uma ótima viagem. E foi!
O caminho e os anjos que encontramos
A cada pedalada, a presença e o acolhimento divinos se manifestavam de diferentes formas. Encontramos verdadeiros anjos, brasileiros, portugueses, franceses, espanhóis, americanos, japoneses, alemães.
Destaco o bicigrino português Luiz, que foi luz em nosso caminho. Encontramo-nos diversas vezes, em situações inesperadas, inclusive na sua chegada. Conhecemos também um casal de Pernambuco, que havia se preparado muito para peregrinar; e Dulce, uma atleta de montanha que, sozinha, desbravava o caminho.
Atravessamos países, conhecemos novas culturas e seguimos em busca da luz. E, enquanto buscamos a luz, também iluminamos o caminho. Foram 853 quilômetros percorridos, mas, muito além da distância, levarei comigo as histórias vividas. Foi uma das melhores experiências da minha vida. Voltei uma nova versão de mim mesma.
Algo mágico acontece no Caminho, assim como na vida: precisamos estar abertos a escolher, crer, sentir e realizar o melhor caminho que se apresenta a cada um de nós.
Alto del Perdón: um encontro com o extraordinário
O que mais me marcou durante o percurso foi conhecer a obra Alto del Perdón.
Depois de atravessarmos uma trilha dificílima, precisei superar meus limites para empurrar a bicicleta em uma subida íngreme e enfrentar uma descida por uma estreita trilha de pedras. Em determinado momento, chorei de medo. Estávamos testando nossos limites físicos, mentais e emocionais.
Quase chegando ao alto da serra, já decididos a seguir pelo asfalto, agradeci aos peregrinos que encontramos e, ao me despedir, um deles nos disse:
— O Obreiro está logo ali!
Naquele instante iluminado, a emoção tomou conta de mim. Com os desejos celestes, o caminho pareceu se tornar mais fácil. Seguimos por mais uns 250 metros e chegamos ao ponto mais alto, onde tantos peregrinos desejam chegar.
Ali, cruzamos nosso caminho com o vento que movimenta as turbinas dos aerogeradores, com os peregrinos presentes e com as representações daqueles de diferentes épocas, retratados em enormes silhuetas metálicas. São várias gerações de peregrinos representadas, muitos dos quais já partiram e se tornaram estrelas, assim como Santiago.
Um lugar emblemático! Um espaço para pensar em tudo o que já percorremos, na ideia do perdão espiritual, na purificação e na proteção durante a peregrinação.
Antigamente, havia ali uma ermida dedicada à Virgem do Perdão e um hospital para acolher os peregrinos. A cura de quem confia é física e espiritual.
O vento representa as forças da natureza, enquanto as estrelas evocam a antiga orientação dos peregrinos. Para mim, as pessoas que ali se encontram representam o precioso presente da caminhada. Cada uma também busca um destino e carrega consigo tudo aquilo que ainda deseja viver.
A bicicleta, o corpo e a natureza
Todos os dias, o mesmo ritual se repetia: acordar, alongar, meditar, alimentar-se, conferir no GPS a rota definida no dia anterior, preparar a bagagem, colocar a mochila nas costas e os pés nos pedais.
As bicicletas tornaram-se uma extensão de nós mesmos. Elas nos conectavam diretamente com o chão e com o caminho.
Nós definíamos o destino, mas o percurso nem sempre correspondia ao planejado. Às vezes, a subida era íngreme; outras vezes, a descida era difícil ou uma verdadeira bênção. Havia curvas, pedras, planícies extensas e ventos que mudavam completamente nossa experiência. Quando sopravam contra nós, dificultavam a pedalada; quando vinham pelas costas, ajudavam a avançar.
No asfalto, tudo parecia mais fácil, embora os carros representassem uma grande ameaça.
Pelo caminho, vimos um pouco de tudo: vilarejos pitorescos, campos verdes, montanhas majestosas, planícies infinitas, plantações de trigo, milho, alfafa e girassóis, eucaliptos, pinheiros americanos, florestas densas e pastagens com vaquinhas e ovelhas.
Também encontramos nogueiras, castanheiras, figueiras e enormes parreirais. Tudo me remetia à minha infância no Rio Grande do Sul.
Próximo à cidade de Las Herrerias, o caminho foi abençoado com muitos parreirais carregados de uvas bordô e brancas, doces e saborosas. Foi o dia em que nos fartamos dessas delícias! Para os peregrinos, essa prática parece ser costumeira: encontram frutas pelo caminho, colhem algumas e também recebem presentes dos moradores. Até galões de água são disponibilizados para quem passa.
Outra coisa que me chamou muito a atenção foi a presença do funcho, a erva-doce, nas bordas das trilhas durante praticamente todo o percurso. Fiquei imaginando se alguém teria pago uma promessa e semeado aquelas plantas ou se existiria uma comissão responsável pela manutenção do caminho e pelo plantio para os peregrinos.
A cada trecho, as paisagens mudavam, as culturas se entrelaçavam e cada registro nos proporcionava algum aprendizado. O caminho se tornava parte integrante da nossa jornada.
Pessoas passaram por nós, e nós passamos por elas. Encontramos gente amigável, que compartilhou suas histórias; algumas foram bondosas e nos ajudaram nos momentos difíceis.
Descobrimos aspectos de nós mesmos que estavam adormecidos. Houve momentos difíceis, em que o cansaço e os desafios nos colocaram à prova, principalmente no final de cada dia. Mas era justamente, nas chegadas mais turbulentas, quando nossa resistência era testada, que encontrávamos novos motivos para continuar. E, apesar de todo o esforço, mantínhamos o desejo de conhecer as principais igrejas e catedrais do percurso.
A espiritualidade que renova
Sempre que entrávamos em uma igreja ou catedral, surgia uma força interior que nem sabíamos possuir. O cansaço e as dores no corpo pareciam desaparecer. Algo transformava nosso estado físico e emocional. A vitória vinha também pela espiritualidade, que elevava a alma e nos levava a refletir sobre as questões mais profundas da existência e do propósito da vida.
Ao longo do caminho, entramos em aproximadamente 40 igrejas. Participamos de festas e dias festivos nas comunidades. Visitamos igrejas pequenas e também catedrais gigantescas, carregadas de séculos de história e memória.
Dentro das catedrais, especialmente na de Santa Maria la Real, encontramos diversas capelas. Em Santiago de Compostela, essas capelas também funcionam como confessionários, com atendimento aos peregrinos em diferentes idiomas.
Foi em La Rioja, no Convento de Santa Helena, com as Irmãs Franciscanas Clarissas, durante uma missa, que senti profundamente que Deus estava em mim. Sua presença, por meio dos cânticos e das orações, acalmou meu espírito e me livrou de uma dor de cabeça.
Pelo caminho, fomos abençoados por uma irmã e, em outro lugar, por um padre cego. Nas igrejas e hotéis sempre dispunham do carimbo do passaporte do peregrino. Nas missas, os peregrinos eram sempre lembrados e abençoados. Tudo isso fortalecia nossa fé e renovava a esperança de que caminhos melhores sempre virão.
Na igreja de Belorado, senti como nunca a realização dos meus desejos. Na Catedral de Santa Maria, em León, a visita com áudio-guias nos permitiu conhecer os diferentes estilos arquitetônicos presentes em sua construção, que se estendeu por mais de 50 anos. Na mesma cidade, na garagem do hotel, deparamo-nos com uma parede datada do ano 50 d.C.
Em Astorga, no dia 5 de outubro, consegui visitar três igrejas dedicadas a santas e santos que correspondem ao meu nome: Santa Maria, Nossa Senhora de Fátima e São Francisco de Assis.
Minha fé se fortaleceu ainda mais quando o recepcionista do hotel afirmou que meu nome era um nome santo. A conexão com a espiritualidade sempre fez parte da minha vida, mas ouvir aquele reconhecimento tocou profundamente meu coração e minha alma.
Ver as ruínas de um enorme convento, com um Cristo exposto e pendurado, também mexeu muito comigo. Perceber o quanto outras pessoas fizeram em nome da fé despertou muitas perguntas: Quem o criou? Quem o destruiu? Por que ninguém o restaura? Agora, somente os peregrinos visitam aquelas ruínas abandonadas, que ainda guardam a memória de um lugar sagrado.
O Cebreiro e o milagre da fé
Entre igrejas e castelos medievais, visitamos também o Museu de Gaudí, uma grande obra da arquitetura.
E, graças a Deus e com muito esforço, principalmente do Assis, vencemos nove quilômetros de subida pelo asfalto, até alcançarmos 1.300 metros de altitude. Por entre as nuvens, surgiu O Cebreiro!
É um dos lugares mais antigos de assistência aos peregrinos do Caminho Francês de Santiago. Um vilarejo encantador, com casas semienterradas, arredondadas, construídas com paredes de pedra e telhados de palha.
Na região, o inverno é rigoroso e a neve abundante. Antigamente, pessoas e animais costumavam dormir juntos para se aquecer. Atualmente, o lugar é muito disputado pelos peregrinos que desejam pernoitar ali.
Foi nesse local que experimentamos um prato típico, queijo fresco com mel. Para mim, a maior delícia gastronômica da viagem!
O Cebreiro guarda ainda a história de um milagre. Em um dia muito frio, um sacerdote, descrente, celebrava a missa apenas para um camponês e chegou a menosprezá-lo por sua presença.
Durante a consagração, segundo a tradição, a hóstia e o vinho se transformaram em Carne e Sangue. Durante muito tempo, essas relíquias ficaram expostas sobre o altar e atraíram visitantes de toda a Europa. Hoje, estão guardadas em um relicário na Capela dos Milagres, onde também se encontram enterrados os corpos dos dois protagonistas dessa história.
As dificuldades também fazem parte do caminho
Erramos o caminho duas vezes, mas tudo bem: valeu, aprendemos! Também tive duas quedas. Em uma delas, fiquei presa embaixo do guidão, mas nada de grave aconteceu.
Dormimos em diferentes lugares: alguns muito bons, outros nem tanto. O melhor foi o hotel-fazenda de Melide. Apesar de distante, valeu muito a pena!
A pior experiência, para mim, foi dormir em um albergue, em um quarto compartilhado com outras dez pessoas. A rotina era interessante: quem chegava primeiro, por volta das 16 horas, tomava banho, comia e ia dormir. O primeiro a levantar, às quatro da manhã, acendia a lanterna do celular, arrumava a bagagem e partia. Nesse intervalo, todos permaneciam em silêncio, respeitando o sono dos demais.
Naquela noite, dormi umas três horas.
A maior ponte: o meu olhar e o olhar do Assis
Passamos por pontes antigas e novas, construídas de pedra, ferro e concreto. Mas a maior de todas as pontes é aquela que existe entre o meu olhar e o do Assis.
O olhar dele se diferencia do meu por uma questão de perspectiva. O desejo de aprender a olhar, para poder enxergar como o outro enxerga e, assim, ver melhor, nasce em mim.
Parte da minha vida viu as mesmas coisas que você viu, Assis. Ainda assim, seus pensamentos e suas ações são diferentes e únicos. Quando seus pensamentos se unem e se acrescentam ao meu olhar, formamos uma visão mais ampla, mais completa e melhor.
Foi essa troca que nos proporcionou viver o Caminho com um significado tão profundo. Vivemos e escrevemos mais um capítulo da nossa história, com fé, reflexão, cumplicidade e renovação espiritual.
Santiago de Compostela: a promessa cumprida
A viagem e o caminho envolveram emoções intensas. Mas a chegada a Santiago de Compostela foi indescritível!
Encontrar a Praça do Obradoiro cheia de peregrinos, todos celebrando diante da Catedral de Santiago, foi emocionante. Cada um comemorava à sua maneira, registrava o momento e buscava o certificado que comprovava a chegada. Estavam ali a força renovada, o esforço, a alegria, a gratidão, a reflexão e a contemplação que nos permitiram alcançar aquele destino.
Todos os dias há missas dedicadas aos peregrinos. Enormes filas se formam, a igreja fica lotada, e o silêncio, a contemplação, o som das enormes harpas e a intercessão de Santiago nos transformam. É um momento de conexão conosco mesmos, com nossa filha, mesmo à distância, com os amigos e com o mundo ao nosso redor.
Além de assistirmos a três missas, visitei o túmulo de Santiago e ali depositei simbolicamente os desejos dos meus 25 amigos e familiares que, dez anos antes, haviam escrito mensagens para mim.
A promessa estava cumprida!
As velas foram acesas. Estar bem foi uma graça que Deus me proporcionou. E, pela mesma graça, cheguei ao final dessa jornada bem de corpo e mente, com a alma elevada, sem limites, no Caminho de Santiago de Compostela.
No caminho encontrei vida. E, vivendo, encontrei sentido para estar onde estou e continuar caminhando.
Finisterra: um presente de amor
Depois de Santiago, ainda faltava chegar até Finisterra, até o farol, o marco zero, até o chamado fim da terra, onde a estrada encontra o mar e a Costa da Morte.
Mais do que chegar a um destino, era ver e fazer o bom e belo caminho e estar com o Assis até o fim da terra!
Esse desejo foi um presente para meu amor, que me acompanha há 28 anos. Esteve comigo durante toda a minha fase difícil, fez o caminho ao meu lado e me orientou durante todo o percurso. Às vezes, ia à frente; outras, seguia atrás; muitas vezes, estávamos lado a lado, juntos.
Valeu, meu amor! Fomos até lá, até bater na Costa da Morte. E voltamos bem, com a graça de Deus.
Ainda deu tempo de visitarmos em Madri, as obras no Museu do Prado, fonte de inspiração para as próximas vertentes.
"A esperança ilumina o caminho, e a fé nos ensina a caminhar com confiança no propósito de Deus, mesmo quando nossos olhos não conseguem enxergá-lo."
Que nossas jornadas inspirem outras pessoas. Que venham novos caminhos, novas descobertas e novas experiências. Que continuemos nossa viagem, evoluindo a cada dia, com fé, amor e gratidão.
*** *** ***
Acompanhe, a seguir, algumas fotos e vídeos de cada dia no Caminho:
25 de Setembro
De Saint-Jean-Pier-De-Port a Roncesvalles
Distância percorrida: 35,89 km
TEmpo em movimento: 4h 21min
Ganho de elevação: 1.389 m
Momento da saída no primeiro dia.
Subindo a Cordilheira dos Pirineus.
Cordilheira dos Pirineus: mais de 1.300 m de subida acumulada em pouco mais de 30 km.
Em Roncesvalles, faltando 755 km para Santiago de Compostela.
O simpático vilarejo de Roncesvalles.
26 de Setembro
De Roncesvalles a Pamplona
Distância percorrida: 50,27 km
Tempo em movimento: 4h 17min
Ganho de elevação: 467m
Iniciando o segundo dia.
Encontro com um "bicigrino" português, Luiz, com quem ainda nos encontraríamos várias vezes nos dias seguintes.
Chegada em Pamplona em festa.
Caminho do bicigrino.
Dia 3
27 de Setembro
De Pamplona a Estella
Distância percorrida: 49,37 km
Tempo em movimento: 4h 08min
Ganho de elevação: 798m
Fenos de trigo.
Monumento Alto del Perdon.
"Onde se cruza o caminho do vento com o das estrelas"
Aerogeradores acompanhavam o caminho pelo alto das montanhas.
Santiago Maior.
Luiz, nosso amigo português.
Mirando o tempo...
Dia 4
28 de Setembro
De Estella a Logroño
Distância percorrida: 52,7 km
Tempo em movimento: 4 h 38 min
Ganho de elevação: 899 m
Bodegas Irache: uma vinícola que distribui vinho gratuitamente para os peregrinos!
Santiago, o mirador de Deus.
Ponte em Logroño.
Catedral de Logroño.
Dia 5
29 de Setembro
De Logroño a Najera
Distância percorrida: 29,37 km
Tempo em movimento: 2 h 32 min
Ganho de elevação: 432 m
Monumento representando os peregrinos.
Trigais.
Pé de nogueira com muitas nozes.
Mosteiro de Santa Maria Real, construído pelo Rei Garcia Sanches III, em 1052.
Catedral de Najera.
Santiago Maior.
Panteão real: abriga sepulturas de antigos reis e membros da realeza de Navarra.
Tem um significado espiritual muito especial.
Fonte de água na praça central do mosteiro.
Dia 6
30 de Setembro
De Najera a Belorado
Distância percorrida: 45,55 km
Tempo em movimento: 3 h 40 min
Ganho de elevação: 756 m
Plantação de girassóis.
Dia 7
1º de Outubro
De Belorado a Burgos
Distância percorrida: 54,33 km
Tempo em movimento: 5 h 14 min
Ganho de elevação: 676 m
Iniciando o sétimo dia, no saguão do hotel.
Consertando o pneu furado.
Feirinha no centro de Burgos.
Construção em estilo gótico francês.
Dia 8
2 de Outubro
De Burgos a Fromista
Distância percorrida: 72,22 km
Tempo em movimento: 5 h 02 min
Ganho de elevação: 560 m
Encontro com o colega de turma da AMAN, Marcius, que estava fazendo o Caminho Francês (o mesmo que nós estávamos percorrendo) caminhando, sozinho.
Não ignore a voz que adverte que tudo é ilusão, menos a morte."
Ruínas do Convento de San Anton (século XIV)
Monumento com o Caminho Francês estilizado.
Dia 9
3 de Outubro
De Fromista a Sahagun
Distância percorrida: 57,18 km
Tempo em movimento: 3h 18 min
Ganho de elevação: 278 m
Mosteiro de San Benito: foi um dos grandes centros religiosos da Espanha Medieval.
Igreja da Santíssima Trindade, em Sahagun.
Dia 10
4 de Outubro
De Sahagun a Leon
Distância percorrida: 55,67 km
Tempo em movimento: 3h 46 min
Ganho de elevação: 305 m
No subsolo do hotel em que ficamos em Leon, o rapaz que nos recebeu comentou conosco: "essa muralha aí é do ano 50!" Aí eu perguntei: "1950?". E ele esclareceu: "Não. Do ano 50 mesmo. 50 depois de Cristo."
A imponente Catedral de Leon (do século XIII).
Dia 11
De Leon a Astorga
Distância percorrida: 62,65 km
Tempo em movimento: 4h 46 min
Ganho de elevação: 527 m
Festa popular, na saída de Leon, no início do 11º dia (em plena segunda-feira)
Catedral de Astorga
Dia 12
6 de Outubro
De Astorga a Ponferrada
Distância percorrida: 56,82 km
Tempo em movimento: 4 h 31 min
Ganho de elevação: 862 m
Monumento Cruz de Ferro (1.500m de altitude), onde há o costume dos peregrinos levarem uma pedra com pedidos e agradecimentos.
Dia 13
7 de Outubro
De Ponferrada a Las Herrerias
Distância percorrida: 45,26 km
Tempo em movimento: 4 h 01 min
Ganho de elevação: 584 m
Vilarejo de Las Herrerias
Dia 14
8 de Outubro
De Las Herrerias a Sarria
Distância percorrida: 59,89 km
Tempo em movimento: 4 h 58 min
Ganho de elevação: 1.111 m
A longa e íngreme subida de 9 km saindo de Las Herrerias, em direção ao Cebreiro.
Vilarejo O Cebreiro, lugar mais antigo de assistência aos peregrinos.
Capela do milagre.
Casa semi enterrada, arredondada, construída com paredes de pedra e telhado de palha, típica dessa localidade (O Cebreiro).
Dia 15
9 de Outubro
De Sarria a Melide
Distância percorrida: 68,36 km
Tempo em movimento: 5 h 35 min
Ganho de elevação: 1.310 m
Dia 16
10 de Outubro
De Melide a Santiago de Compostela
Distância percorrida: 55,45 km
Tempo em movimento: 5 h 15 min
Ganho de elevação: 1.011 m
Catedral de Santiago de Compostela:
Mari com o certificado de conclusão do Caminho
Catedral de Santiago de Compostela, início da construção no séc. XI
Um dos lugares mais importantes da cristandade e o destino final dos peregrinos do Caminho de Santiago.
No interior da catedral estão os restos mortais do apóstolo São Tiago Maior.
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13 de Outubro - Passeio a Finisterra
Nesse dia fomos conhecer (de ônibus) a emblemática localidade de Finisterra, há cerca de 90 km de Santiago. O Caminho Francês segue até esse local, onde fica o km zero. Muitos peregrinos ainda seguem, depois de chegar a Santiago, até lá.
O nome se refere à ideia de que, há muitos séculos, imaginava-se que ali era o "fim da terra".
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24 de Setembro - Saint-Jean-Pierd-de-Port (França)
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14 de Outubro - Santiago a Madrid
Para chegar à cidade inicial e voltar do final foi uma longa e cansativa empreitada.
O itinerário de ida envolveu uma hora de avião de Curitiba a São Paulo, 11 horas de voo de São Paulo a Madrid, 3 horas de trem de Madrid a Pamplona mais 2 horas de ônibus de Pamplona a Saint-Jean-Pier-de-Port (distribuídas em quase três dias de viagem). Mas calma, que não foi tão simples assim.
No primeiro voo, saindo de Curitiba, levamos um "chá de cadeira" de umas 5 horas de espera no aeroporto, para, ao final, termos o voo cancelado por razões meteorológicas (dentre outros imbróglios). Em consequência perdemos também o voo internacional que sairia de São Paulo naquela noite. Tudo ficou remarcado para o dia seguinte. Com isso, perdemos reservas de hospedagem e passagens de trem já compradas para os primeiros dias na Espanha. No dia seguinte, mais atrasos nos voos: uma hora de atraso pra sair de Curitiba, mais 3 horas de atraso já embarcados no avião, em São Paulo.
No retorno de Santiago foram 3 horas de trem até Madrid, 10 horas de voo de volta a São Paulo, mais uma hora até Curitiba. Nesses percursos houve outras peripécias logísticas, como confusão de horários e de conexões de voo.
Enfim: é preciso ter disposição e muita paciência pra encarar essas questões, sobretudo esses trâmites de aeroporto, que são extremamente cansativos e enrolados.















































































































































































































































































































































































































































