Tiger 900 Rally Pro

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sábado, 9 de maio de 2026

Sobre o livro "Em busca de sentido", de Viktor Frankl, Curitiba-PR, Maio de 2026

 




Sobre o sentido da vida



Essa questão do sentido da vida é, certamente, um dos pontos chave do entendimento da existência humana. Quem nunca se perguntou, em algum momento, "o que eu estou fazendo aqui" ou "pra que serve tudo isso"? Dependendo de quanta atenção dispensemos a essas perguntas, essa inquietação pode ser passageira e não representar maiores riscos, mas, se pensadas em profundidade e extensão, têm o potencial de perturbar nossa tranquilidade (para usar um eufemismo), mas também de nos levar a respostas ou ideias bastante reveladoras ou mesmo transformadoras. 

Há diversas possíveis respostas a essa questão. Há quem diga, por exemplo, que o sentido da vida estaria na evolução do espírito, que estamos aqui como que numa espécie "câmara catalisadora" de aperfeiçoamento. 

Mas há também quem defenda que o tão sonhado sentido da vida estaria em ajudar nossos demais irmãos de espécie nessa curta jornada terrestre, que qualquer coisa fora desse escopo seria supérfluo. 

Há ainda quem ache que a resposta a essa crucial questão é que estaríamos aqui para sermos felizes, para "aproveitar a viagem", para experimentar os prazeres (e mesmo os inevitáveis perrengues) de estar vivo. 

Ou, como dizia o filósofo imperador Marco Aurélio, o sentido da vida seria natural e simplesmente sermos humanos, ou fazermos aquilo que fomos feitos para fazer, que, segundo seu entendimento, seria desenvolver virtudes e valores humanos (algo muito próximo do entendimento do sentido da vida como evolução). 

E, dentre outras várias linhas de pensamento sobre o tema, há também aqueles que vão na direção contrária de qualquer resposta, afirmando que a vida, afinal, não teria sentido algum (abordagem filosófica que ficou conhecida como niilismo), que tudo o que vivemos ou deixamos de viver seria um grande jogo aleatório de possibilidades e consequências infinitas embaralhadas num tabuleiro incompreensível. 

Podemos também tentar adotar um entendimento mediador, digamos assim; considerando que o sentido da vida seria um "meio termo" entre todas as hipóteses levantadas, ou seja, um pouco de cada coisa, ou algo assim. Mas isso, convenhamos, soa um pouco como sair pela tangente da questão, como querer conciliar pontos de vista diversos numa equação única; algo claramente pouco efetivo. 

Mas há ainda uma outra proposta de entendimento dessa questão, que, pessoalmente, acho bastante pertinente: a de que não haveria de fato uma "resposta geral", ou, em outros termos, pré-definida, para esse "dilema". Segundo esse entendimento, o sentido da vida seria um conceito meio que "individualizado", muito mais subjetivo do que objetivo; seria muito mais uma "construção pessoal" do que algo dado a priori. Quem sabe?


Há algumas semanas terminei a leitura do emblemático livro "Em busca de sentido, do professor e fundador da logoterapia Viktor Frankl (1905-1997), que, como o próprio título deixa expresso, trata especificamente dessa questão. Acontece que Frankl não foi "apenas" um estudioso e teórico do assunto; ele teve uma vivência pessoal das mais impactantes que um ser humano pode ter, sob o viés do sofrimento e de conseguir enxergar sentido na vida: ele foi prisioneiro de quatro campos de concentração nazistas na Segunda Guerra Mundial, por vários anos. 

Certamente é uma obra de referência quando se trata desse importante assunto. Deixo aqui minha enfática recomendação de leitura e, mais do que isso, de reflexão sobre as ideias ali tratadas, bem como um convite aos amigos que eventualmente se interessarem pelo tema para uma conversa pessoal a respeito. 

Transcrevo abaixo a apresentação da contra capa do livro, e a seguir, alguns trechos destacados da obra. 





"Nesta obra-prima, Viktor E. Frankl narra a experiência de um psicólogo no campo de concentração. Ele descreve como sentiu e observou a si mesmo e as demais pessoas e seu comportamento na situação-limite do campo de extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Ao fazê-lo, toca na essência do que é ser humano: usar a capacidade de transcender uma situação extremamente desumanizadora, manter a liberdade interior e, desta maneira, não renunciar ao sentido da vida, apesar dos pesares.

Contendo dois apêndices em que o autor expõe os "Conceitos fundamentais da logoterapia" e a "Tese do otimismo trágico", trata-se de um livro que, além de informativo, é comovente no melhor sentido da palavra."

"Viktor E. Frankl, MD, Ph.D (1905-1997), é o fundador da logoterapia. Foi professor de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Viena e também professor de Logoterapia na Universidade Internacional da Califórnia. Lecionou ainda nas Universidades de Harvard, Stanford, Dallas e Pittsburgh. As muitas viagens de conferências, para as quais recebeu convite de mais de duzentas universidades, levaram Frankl a muitos países de todos os continentes, inclusive no Brasil, onde esteve em 1984. Seus 39 livros foram publicados em cinquenta línguas. Seu livro "Em busca de sentido" teve milhões de cópias vendidas e foi listado entre os dez livros mais influentes nos Estados Unidos da América."






Trechos que destaco da obra:
(Editora Vozes, 67ª edição)


"A vida é sofrimento, e sobreviver é encontrar sentido na dor. Se há, de algum modo, um propósito na vida, deve havê-lo também na dor e na morte. Mas pessoa alguma pode dizer à outra o que é esse propósito. Cada um deve descobri-lo por si mesmo e aceitar a responsabilidade que sua resposta implica." (Gordon W. Allport, prefácio) (pág 9)


"(...) a última liberdade humana - a capacidade de escolher a atitude pessoal que se assume diante de determinado conjunto de circunstâncias." (Gordon W. Allport, prefácio) (p 9)


"O sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer , e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior do que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser." (p12)


"Numa situação anormal, uma reação anormal simplesmente é a conduta normal." (p43)


"É a primeira vez na vida que experimento a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da sabedoria, por tantos poetas cantada: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana." (p71)


"A vontade de humor - a tentativa de enxergar as coisas numa perspectiva engraçada - constitui um truque útil para a arte de viver." (p81)


"Em princípio, portanto, toda pessoa, mesmo sob aquelas circunstâncias, pode decidir de alguma maneira no que ela acabará sendo, em sentido espiritual." (p113)


"Dostoievsky afirmou certa vez: 'temo somente uma coisa: não ser digno do meu tormento.'" (p113)


"(...) inerente ao sofrimento há uma conquista, que é uma conquista interior. A liberdade espiritual do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permiti-lhe, até o último suspiro, configurar sua vida de modo que tenha sentido." (p113)


"Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá." (p114)


"(...) a pessoa interiormente pode ser mais forte do que seu destino exterior. Sempre e em toda parte, a pessoa está colocada diante da decisão de transformar sua situação de mero sofrimento numa realização interior de valores." (p115)


"Somente entregava os pontos aquele que não tinha mais em que se segurar interiormente! Em que deveria e poderia consistir esse apoio interior? Eis a nossa questão." (p118)


"(...) muitas vezes é justamente uma situação exterior extremamente difícil que dá à pessoa a oportunidade de crescer interiormente para além de si mesma." (p121)


"A vida é como estar no dentista: a gente pensa que o principal ainda vem, quando na realidade já passou." (p122)


"Não deixa de ser uma peculiaridade do ser humano que ele somente pode existir propriamente com uma perspectiva futura." (p123)


"A emoção que é sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que dela formamos uma ideia clara e nítida" (De Espinoza, em sua Ética) (p124)


"Toda tentativa de restabelecer interiormente as pessoas no campo de concentração pressupõe que consigamos orientá-las para um alvo no futuro." (p127)


"Quem tem por que viver aguenta quase todo como." (palavras de Nietzsche) (p127)


"Precisamos aprender e também ensinar às pessoas em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós." (p128)


"(...) dando a resposta adequada não por meio de elucubrações ou discursos, mas apenas por meio da ação, por meio da conduta correta. Em última análise, viver não significa outra coisa senão arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento." (p129)


"Jamais, portanto, o sentido da vida humana pode ser definido em termos genéricos; nunca se poderá responder com validade geral à pergunta por esse sentido." (p129)


"Nenhum ser humano e nenhum destino podem ser comparados com outros; nenhuma situação se repete. E em cada situação a pessoa é chamada a assumir outra atitude." (p129)


"Quando um homem descobre que seu destino lhe reservou um sofrimento, tem que ver nesse sofrimento também uma tarefa sua, única e original." (p129)


"(...) na maneira com ela própria suporta esse sofrimento está também a possibilidade de uma realização única e singular." (p130)


"O efeito direto de ser exemplo sempre é maior do que o efeito de palavras." (p133) 


"Aquilo que viveste nenhum poder do mundo tirará. Aquilo que realizamos na plenitude da nossa vida passada, na abundância de suas experiências, essa riqueza interior nada nem ninguém nos podem tirar." (p136)


"A vida humana tem sentido sempre e em todas as circunstâncias, e esse infinito significado da existência também abrange sofrimento. morte e aflição." (p137)


"De tudo isso podemos aprender que existem sobre a terra duas raças humanas e realmente apenas duas: a "raça" das pessoas direitas e a das pessoas torpes." (p142)


"O que é, então, um ser humano? É o ser que sempre decide o que ele é." (p142)


 "Ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que sofreu injustiça." (p149)


"Se comparada à psicanálise, a logoterapia é menos retrospectiva e menos introspetiva. A logoterapia concentra-se mais no futuro, ou seja, nos sentidos a serem realizados pelo paciente em seu futuro." (p156)


"A logoterapia, de fato, confronta o paciente com o sentido de sua vida e o reorienta para o mesmo." (p156)


"O termo 'logos' é uma palavra grega e significa 'sentido'! A logoterapia concentra-se no sentido da existência humana, bem  como na busca da pessoa por esse sentido. Para a logoterapia, a busca de sentido na vida da pessoa é a principal força motivadora no ser humano." (p156)


"A busca do indivíduo por um sentido é a motivação primária em sua vida, e não uma 'racionalização secundária' de impulsos instintivos" (p157)


"O que acontece, porém, é que o ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores!" (p157)


"A vontade de sentido também pode ser frustrada; nesse caso a logoterapia fala de 'frustração existencial'." (p159)


"Nem todo conflito é necessariamente neurótico; certa dose de conflito é normal e sadia." (p161)


"A frustração existencial em si mesma não é patológica nem patogênica." (p161)


"A logoterapia considera sua tarefa ajudar o paciente a encontrar sentido em sua vida." (p162)


"A logoterapia diverge da psicanálise na medida em que considera o ser humano um ente cuja preocupação principal consiste em realizar um sentido." (p162)


"A saúde mental está baseada em certo grau de tensão, tensão entre aquilo que já se alcançou e aquilo que ainda se deveria alcançar, ou o hiato entre o que se é e o que se deveria vir a ser." (p164)


"O que o ser humano realmente precisa não é um estado livre de tensões, mas antes a busca e a luta por um objetivo que valha a pena, uma tarefa escolhida livremente." (p164)


"Quando os terapeutas desejam incrementar a saúde mental de seus pacientes, não deveriam ter receios de criar uma sadia quantidade de tensão por meio da reorientação para o sentido da sua vida." (p165)


"Nenhum instinto lhe diz o que deve fazer e não há tradição que lhe diga o que ele deveria fazer; às vezes, ele não sabe sequer o que deseja fazer. Em vez disso, ele deseja fazer o que os outros fazem (conformismo), ou ele faz o que outras pessoas querem que ele faça (totalitarismo)." (p166)


"O vazio existencial manifesta-se principalmente num estado de tédio." (p166)


"Toda terapia precisa, de algum modo, por mais restrita que seja, ser também logoterapia." (p168)


"Vejamos o que se pode fazer quando um paciente pergunta qual é, afinal, o sentido da sua vida. Duvido que um médico possa responder a essa questão em termos genéricos. Isso porque o sentido da vida difere de pessoa para pessoa, de um dia para outro, de uma hora para outra. O que importa, por conseguinte, não é o sentido da vida de um modo geral, mas antes o sentido específico da vida de uma pessoa em determinado momento." (p168)


"Não se deferia procurar um sentido abstrato da vida. Cada qual tem sua própria vocação ou missão específica na vida; cada um precisa executar uma tarefa concreta, que está a exigir realização. Nisso a pessoa não pode ser substituída, nem pode sua vida ser repetida. Assim, a tarefa de cada um é tão singular como a sua oportunidade específica de levá-la a cabo." (p169)


"Uma vez que cada situação na vida constitui um desafio para a pessoa e lhe apresenta um problema para resolver, pode-se, a rigor, inverter a questão pelo sentido da vida. Em última análise, a pessoa não deveria perguntar qual o sentido da sua vida, mas antes deve reconhecer que é ela que está sendo indagada. Em suma, cada pessoa é questionada pela vida; e ela somente pode responder à vida respondendo por sua própria vida." (p169)


"Assim, a logoterapia vê na responsabilidade a essência propriamente dita da existência humana." (p169)


"Em linguagem figurada, o papel da logoterapia é antes o de um oculista que de um pintor. O pintor procura transmitir-nos uma imagem do mundo como ele o vê; o oftalmologista procura capacitar-nos a enxergar o mundo com ele é na realidade. O papel do logoterapeuta consiste em ampliar e alargar o campo visual do paciente de modo que todo o espectro de sentido em potencial se torne consciente e visível para ele." (p171)


"O verdadeiro sentido da vida deve ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa humana ou de sua psique, com se fosse um sistema fechado." (p171)


"O ser humano sempre aponta e se dirige para algo ou alguém diferente de si mesmo - seja um sentido a realizar ou outro ser humano a encontrar. Quanto mais a pessoa se esquecer de si mesma - dedicando-se a servir uma causa ou a amar outra pessoa - , mais humana será e mais se realizará. O que se chama de autorrealização não é de modo algum um objetivo atingível, pela simples razão de que quanto mais a pessoa se esforçar, tanto mais deixará de atingi-lo. Em outras palavras, a autorrealização só é possível como um efeito colateral da autotranscendência." (p171)


"Não devemos esquecer nunca que também podemos encontrar sentido na vida quando nos confrontamos com uma situação sem esperança, quando enfrentamos uma fatalidade que não pode ser mudada. Porque o que importa, então, é dar testemunho do potencial especificamente humano no que ele tem de mais elevado e que consiste em transformar uma tragédia pessoal num triunfo, em converter nosso sofrimento numa conquista humana." (p173)


"Sofrimento de certo modo deixa de ser sofrimento no instante em que encontra um sentido, como o sentido de um sacrifício." (p174)


"Um dos princípios fundamentais da logoterapia está em que a principal preocupação da pessoa não consiste em obter prazer ou evitar a dor, mas antes em ver um sentido em sua vida." (p174)


"É preciso deixar perfeitamente claro, no entanto, que o sofrimento não é de modo algum necessário para encontrar sentido." (p174)


"Esse sentido último necessariamente excede e ultrapassa a capacidade intelectual finita do ser humano; na logoterapia falamos neste contexto de um suprassentido. O que se requer da pessoa não é aquilo que alguns filósofos existenciais ensinam, ou seja, suportar a falta de sentido da vida; o que se propõe é, antes, suportar a incapacidade de compreender, em termos racionais, o fato de que a vida tem um sentido incondicional. O logos é mais profundo do que a lógica." (p180)


"Entre as coisas que parecem tirar o sentido da vida humana estão não apenas o sofrimento, mas também a morte." (p182)


"A transitoriedade da nossa existência de forma alguma lhe tira o sentido. (...) Tudo depende de nos conscientizarmos das possibilidades essencialmente transitórias." (p183)


"A todo e qualquer momento, a pessoa precisa decidir, para o bem e para o mal, qual será o monumento de sua existência." (p183)


"Nada pode ser desfeito, nada pode ser eliminado; eu diria que ter sido é a mais segura forma de ser." (p183)


"O prazer é e deve permanecer efeito colateral ou produto secundário; ele será anulado e comprometido à medida que dele se fizer um objetivo em si mesmo." (p185)


"A logoterapia baseia sua técnica denominada 'intenção paradoxal' no fato duplo de que o medo produz aquilo de que temos medo e de que a intenção excessiva impossibilita o que desejamos." (p186)


"Cada época tem sua própria neurose coletiva, e cada época necessita de sua própria psicoterapia para enfrentá-la. O vazio existencial, que é a neurose em massa da atualidade, pode ser descrito como forma privada e pessoal de niilismo; o niilismo, por sua vez, pode ser definido como a posição que diz não ter sentido o ser." (p193)


"Sem dúvida o ser humano é um ser finito e sua liberdade é restrita. Não se trata de estar livre de fatores condicionantes, mas sim da liberdade de tomar uma posição frente aos condicionamentos." (p194)


"Um pressuposto ainda mais errôneo e perigoso, que eu chamo de pandeterminismo. Refiro-me à visão do ser humano que descarta sua capacidade de tomar uma posição frente a condicionantes, quaisquer que sejam. O ser humano não é completamente condicionado e determinado; ele mesmo determina se cede aos condicionantes ou se lhes resiste. Isto é, o ser humano é autodeterminante, em última análise. Ele não simplesmente existe , mas sempre decide qual será sua existência, o que ele se tornará no momento seguinte." (p195)


"O ser humano é capaz de mudar o mundo para melhor, se possível, e de mudar a si mesmo para melhor, se necessário." (p195)


"O ser humano é mais do que psique." (p196)


"O ser humano, em última análise, se determina a si mesmo. Aquilo que ele se torna - dentro do limite dos seus dons e do meio ambiente - é ele que faz de si mesmo." (p198)


"O que se deve entender por 'otimismo trágico'? Em resumo, significa que a pessoa é e permanece otimista apesar da 'tríade trágica', como é chamada em logoterapia a tríade daqueles aspectos da existência humana que podem ser circunscritos por: 1. dor; 2. culpa; 3. morte. (...) Como pode a vida conservar seu sentido potencial apesar dos seus aspectos trágicos? (...) A vida, potencialmente, tem um sentido em quaisquer circunstâncias, mesmo nas mais miseráveis. (...) Em outras palavras, o que importa é tirar o melhor de cada situação dada." (p201)


"Devemos manter bem claro, no entanto, que o otimismo não pode ser resultado de ordens ou determinações. Tampouco a pessoa pode forçar-se a si mesma a ser otimista indiscriminadamente. (...) Fé e amor também não podem ser exigidos." (p201)


"A felicidade não pode ser buscada; precisa ser decorrência de algo. Deve-se ter ima razão para 'ser feliz'. (...) Na nossa maneira de ver, o ser humano não é alguém em busca da felicidade, mas sim alguém em busca de uma razão para ser feliz, por meio - e isto é importante - da realização concreta do significado potencial inerente e latente numa situação dada." (p202)


"Uma vez que a busca de sentido por parte do indivíduo é bem-sucedida, isto não só o deixa feliz, mas também lhe dá a capacidade de enfrentar sofrimento." (p203)


"Quanto à origem do sentimento de falta de sentido, pode-se dizer, ainda que de maneira muito simplificadora, que as pessoas têm o suficiente com o que viver, mas não têm nada por que viver; têm os meios, mas não têm o sentido." (p204)


"A verdade é que o ser humano não vive apenas de bem-estar." (p205)


"Pensamos na síndrome neurótica de massa tão difundida na jovem geração: há ampla evidência empírica de que as três facetas dessa síndrome - depressão, agressão, dependência de drogas - são devidas ao que se chama em logoterapia 'o vazio existencial', um sentimento de vacuidade e de fata de sentido." (p206)


"Mesmo que todo e qualquer caso de suicídio não tenha sido levado a cabo por causa de um sentimento de falta de sentido, é bem possível que o impulso de tirar a vida tivesse sido superado se a pessoa tivesse estado consciente de algum sentido e propósito pelos quais valesse a pena viver." (p206)


"Será que o sentido último da vida não se revela (quando se revela) só no seu final, a um passo da morte? E será que também esse sentido final não depende de o sentido potencial de cada situação particular ter sido realizado da melhor maneira possível, de acordo com o conhecimento e as crenças do indivíduo?" (p208)


"A logoterapia vê a consciência como um fator estimulador que, se necessário, indica a direção em que temos que nos mover em determinada situação da vida. Para levar a cabo tal tarefa, a consciência deve aplicar uma fita métrica à situação enfrentada. A situação deve ser medida e avaliada à luz de um conjunto de critérios e uma hierarquia de valores. Esses valores, no entanto, não podem ser escolhidos e adotados por nós num nível consciente - constituem algo que nós somos." (p209)


"Como ensina a logoterapia, há três caminhos principais pelos quais se pode chegar ao sentido da vida. O primeiro consiste em criar um trabalho ou fazer uma ação. O segundo está em experimentar algo ou encontrar alguém. (...) O mais importante, no entanto, é o terceiro caminho: mesmo uma vítima desamparada, numa situação sem esperança, enfrentando um destino que não pode mudar, pode erguer-se acima de si mesma, crescer para além de si mesma e, assim, mudar-se a si mesma." (p210)


"Será que o sofrimento é indispensável à descoberta de sentido? De modo algum. O sentido está disponível apesar do - ou melhor, através do - sofrimento, desde que o sofrimento seja inevitável. (...) Por outro lado, mesmo se a pessoa não puder mudar a situação que causa seu sofrimento, pode escolher sua atitude. (...) Mas realmente superior é o saber como sofrer, quando se faz necessário." (p212)


"Sempre cada um dos instantes de que a vida é feita está morrendo, e aquele instante nunca mais voltará. Mas porventura não é essa transitoriedade algo que nos estimula e desafia a fazer o melhor uso possível de cada momento de nossas vidas?" (p215)


"No passado, nada fica irremediavelmente perdido, mas, ao contrário, tudo é irreversivelmente estocado e entesourado." (p215)


"É verdade que os velhos já não têm oportunidades nem possibilidades no futuro. Mas eles têm mais do que isso. Em vez de possibilidades no futuro, eles têm realidades no passado." (p215)


"(...) valor incondicional que cada pessoa, sem exceção, possui. E é isso que garante o fato indelével da dignidade humana. Assim como a vida permanece potencialmente significativa sob quaisquer circunstâncias, mesma as mais miseráveis, também o valor de cada pessoa, sem exceção, a acompanha, e o faz porque está baseado nos valores que a pessoa já realizou no passado." (p216)


"O niilismo não afirma que não existe nada, mas afirma que tudo é desprovido de sentido. E George A. Sargent estava certo quando promulgou o conceito de 'falta de sentido aprendida'. Ele mesmo se lembrava de um terapeuta que disse: 'George, você deve compreender que o mundo é uma piada. Não há justiça, tudo é acaso. Só quando você compreender isso vai perceber como é tolo levar-se a si mesmo a sério. Não há um propósito elevado no universo. O universo é simplesmente. Não há sentido particular na decisão que você tomar hoje com relação a como agir'. Não devemos generalizar uma crítica dessas. Os terapeutas deveriam ver como sua tarefa imunizar os treinados conta o niilismo, em vez de inoculá-los com o cinismo, que constitui um mecanismo de defesa contra seu próprio niilismo." (p217)


"O mundo está numa situação ruim. Porém, tudo vai piorar ainda mais se cada um de nós não fizer o melhor que puder." (p219)




E então, o que você pensa sobre o tema?





*** *** ***



Gratidão



Força Sempre






quarta-feira, 8 de abril de 2026

Viagem de moto à Serra Gaúcha (São José dos Ausentes-RS), 21 a 24 de março de 2026

 



O chamado da estrada

Viagenzinha de moto 

4 dias, 1.321 km, solo


De volta à vivência dessa fórmula de pequenas viagens de moto, cerca de um ano e meio depois da última vez. Agora, com uma nova máquina, a notável Royal Enfield Himalayan 450. Será que vou achar novamente o jeito de brincar essa brincadeira, após tão expressiva lacuna?

Mas antes de falar sobre a viagem em si, vamos ver um pouco sobre essa belezinha de moto. Adquiri a Himalayan 450 em novembro do ano passado, depois de muita pesquisa e reflexão sobre qual modelo iria investir meus cobres. Depois de ter passado, nos últimos 14 anos (de 2010 a 2024), por motos emblemáticas do universo Big Trail - BMW 1200 GS (9 anos de uso), Ducati Multistrada 1200 (11 meses) e Triumph Tiger 900 Rally Pro (3 anos) - decidir mudar de faixa de potência/ tamanho para um degrau abaixo foi um raciocínio baseado em um punhado de variáveis. Primeiro tem a questão determinante do custo do equipamento (e de toda a cadeia logística, tributos e custos relacionados), mas esse é só um dos pontos. Mais do que isso, uma moto menor tem também vantagens técnicas no que diz respeito à pilotagem, que se torna mais amigável em certas situações (particularmente em estradas de terra, mas não apenas nesses ambientes).

Mas é lógico que motos são um tipo de equipamento que instigam muito mais pelo aspecto emocional do que exatamente pelo racional, e, com relação a isso, motos grandes, de alta cilindrada e alta tecnologia certamente têm um apelo inegável. Além ainda do afago puramente psicológico de se sentir pilotando uma máquina com potência e capacidades de sobra que as motos maiores proporcionam... E é nesses pontos que residia a minha dúvida se iria me adaptar a uma moto menor, depois de tantos anos e tão boas memórias arquivadas com as legítimas Big Trails.

Considerados todos os aspectos, experiência pessoal, muita pesquisa e um tanto de intuição, decidi-me então por essa motinha da Royal Enfield. Estilo retrô, monocilíndrica, 450 cilindradas. Confesso que inicialmente estranhei um pouco sua estética, mas aos poucos fui reconhecendo beleza em suas formas peculiares. 

Resumindo a história, hoje, depois de 3.500 km rodados, posso dizer que estou plenamente satisfeito e adaptado a essa bela máquina. É lógico que não há aqui os arroubos de potência e velocidade das grandes, mas em compensação ela entrega o necessário e suficiente para uma tocada divertida e prazerosa. E não é isso o que, essencialmente, buscamos nesses cavalinhos mecânicos?

Então a viagem: estava pois um tanto sedento pra colocar a motinha na estrada e ver como ela se comportaria numa viagem um pouquinho maior do que os percursos do dia-a-dia. Optei por dar uma rodada pela conhecida região das Serras catarinense e gaúcha, entre as cidades de Urubici e São José dos Ausentes. Região que de fato aprecio muito.

No primeiro dia fui de Curitiba a Urubici pela BR 116 até Lages, depois pela BR 282 e SC 110 (trechinho de 25 km bem sinuoso e bacana). Montei acampamento no Camping Terras do Sul, local já conhecido a 25 km da cidade. Reencontrei então com o amigo Dani, dono e gestor do camping, morador do local há já vinte anos, israelense de nascimento, com quem sempre há boas trocas de ideias.

À noite, enquanto preparava o jantar na cozinha comunitária, um camarada que estava por ali puxou conversa, e acabamos batendo um bom papo, em inglês, apesar da minha pouca prática no idioma. Um cara dos seus quarenta e poucos anos, israelense, estava viajando com a esposa e quatro filhos (duas crianças pequenas e dois um pouco maiores) por um ano, sendo que já havia passado quatro meses na Europa, agora estava passando mais uns quatro meses no Brasil e depois iria fazer uma última etapa de mais quatro meses nos Estados Unidos. Contou-me sobre as tensões das constantes guerras em que Israel se vê envolvido; que serviu na tropa de elite da marinha israelense por quatro anos; e que agora mantem lá em Israel uma escola preparatória para o serviço militar, para adolescentes. Conversamos ainda sobre viagens, sobre sua impressão do Brasil (muito boa, por sinal), e sobre sua perspectiva de futuro (retornar à terra natal e continuar tocando a vida). Sempre muito bom poder bater um papo com pessoas que estão vivendo um ritmo e uma realidade bem diferentes do dia-a-dia das "pessoas comuns". 

No segundo dia, um domingo, fiquei meio sem compromisso, justamente pra viver um pouco esse contra-ritmo de dar uma parada e observar as coisas (ambiente externo e interno). Fiquei ali pelo camping, dei uma caminhada, li um pouco, saí pra almoçar na cidade e à tarde o tempo deu uma virada, com muitas nuvens e cara de chuva. Fim de tarde imerso no silêncio e na paz daquele lugar absolutamente inspirador (o mesmo camping da noite anterior).

O terceiro dia da viagem amanheceu ainda bem nublado e cinzento. Arrumei minhas coisas e botei o pé na estrada, rumo sul, pelo alto da serra. Primeiro um trechinho de 85 km de asfalto até Bom Jardim da Serra. Estrada com muitas curvas e uma paisagem cinematográfica ao redor. Nesse ínterim a neblina matinal se dissipou e abriu um belo dia de sol e céu azul. 

Depois um outro trecho de mais uns 85 km de estrada de terra até São José dos Ausentes, cruzando os campos, horizontes e plantações de maçã do alto da serra. Percurso que já conhecia de outras ocasiões, mas sempre divertido e muito bonito. A Himalayan se comportou absolutamente bem nas diversas situações, transmitindo sempre muita confiança e controle na pegada. 

Na sequência desci a belíssima Serra da Rocinha, recentemente asfaltada (e ainda em obra em alguns trechos), irmã (e vizinha) da famosa Serra do Rio do Rastro. Cenário de cinema! Parece que estamos descendo do espaço em direção à Terra numa espaço nave. 

De volta à planície (e ao calor!), fui seguindo por umas estradinhas secundárias até desembocar, já no final da tarde, em meio a um trânsito intenso, nas imediações de Tubarão, onde achei um hotelzinho e tirei meu time de campo.

No quarto dia apenas segui pela famigerada BR 101 sentido norte. Até Florianópolis até que rendeu bem, dentro de certa normalidade, mas depois a situação se deteriorou, com um trânsito pesadíssimo de muitos caminhões, engarrafamentos gigantescos e aquele ambiente nada auspicioso de forma geral. Paciência... No final deu tudo certo. Cheguei de volta em casa no meio da tarde, bem satisfeito com o pequeno passeio. 

Resta, ao fim e ao cabo, "gerenciar" a sempre presente questão do sentido dos caminhos que percorremos, das escolhas que fazemos (e suas inevitáveis e decorrentes consequências), e mesmo dos caminhos que não percorremos, daquilo que vai sendo descartado no contínuo processo da vida... Talvez o segredo desse grande mistério que é a vida seja que não há, afinal, segredo algum, nem mesmo mistério. Talvez apenas um grande jogo de infinitas, incongruentes e inconclusivas opções, espalhadas por aí, como estrelas num céu noturno. Quem sabe?

Vamos juntos?




1º dia, Curitiba a Urubici
485 km percorridos




Tradicional confeitaria em Urubbici









"Amarelo caterpillar"
































Estrada entre Urubici e o camping Terras do Sul

































































Acampamento montado!



















Rio do Bispo, ao lado do camping







2º dia, camping Terras do Sul















3º dia, Urubici a Tubarão
358 km percorridos




Topo da Serra do Corvo Branco, que se encontra interditada, por estar em obras








Entre Urubici e Bom Jardim da Serra

















Entre Bom Jardim da Serra e São José dos Ausentes












































































































Divisa entre SC e RS






















































































Posto abandonado próximo a São José dos Ausentes 





























Trecho com muita pedra solta ("o rípio brasileiro"... Rsrs)










Serra da Rocinha











Lindo visual na Serra da Rocinha





























Estrada secundária na região de Timbé do Sul









4º dia, Tubarão a Curitiba
424 km percorridos

(sem fotos...)




Observação:
Média de consumo total na viagem: 28,2 km/l











Gratidão




Força Sempre